“A palavra é , numa só unidade,
três coisas distintas –
o sentido que tem,
os sentidos que evoca, e
o ritmo que envolve esse sentido e estes sentidos.”
Fernando Pessoa
Escritos de luz invadem a sombra, mais prodigiosos do que meteoros.
A alta cidade irreconhecível avança sobre o campo.
Seguro da minha vida e da minha morte, contemplo os ambiciosos e desejo entendê-los.
O seu dia é ávido como o laço no ar.
A sua noite é a trégua da ira no ferro, pronto a acometer.
Falam de humanidade.
A minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma penúria.
Falam de pátria.
A minha pátria é um palpitar de guitarra, uns retratos e uma velha espada, a prece clara do salgueiral ao entardecer.
O tempo vive-me.
Mais silencioso do que a minha sombra, cruzo o tumulto da sua exaltada cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã.
O meu nome é alguém e qualquer um.
Caminho com lentidão, como quem vem de tão longe que não tem esperança de chegar.
A arrogância da quietude - Jorge Luis Borges
(epígrafe de “A Herança do Vazio” de Kiran Desai)
Paixões são vagalumes.
Brilhando por uma, duas noites.
E então,
quando conseguimos alcançar uma
e guardá-la em um pote para a eternidade,
acordamos no dia seguinte,
vendo lá apenas um bichinho imóvel com um brilho fosco.
Por isso, não as prenda com ferramentas tão brutas.
Mas com uma rede maior,
fiada com um zilhão e meio de fios.
Guarde-as no reflexo dos seus olhos,
cada uma delas,
em cada instante.
Somniriliumn